“Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis | Filme e livro

E se você pudesse contar a história da sua vida depois de morrer?

Sem precisar agradar os vivos, preservar a reputação ou fingir virtudes que nunca teve?

Foi com essa ideia, tão simples quanto perturbadora, que Machado de Assis criou uma das obras mais originais da literatura brasileira.



✍️ Machado de Assis : o mestre da ironia brasileira

Falar de literatura brasileira sem passar por Machado de Assis é quase impossível.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1839, Machado foi escritor, jornalista, cronista e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente. De origem humilde e autodidata, tornou-se um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa.

Mas sua genialidade não estava apenas na escrita elegante. Machado tinha um olhar cirúrgico para a alma humana. Observava vaidades, ambições, aparências e hipocrisias com uma ironia fina, frequentemente acompanhada de um certo pessimismo.

E foi em 1881 que esse olhar encontrou uma de suas formas mais revolucionárias.

💀 Um defunto que não tem nada a perder

Publicado inicialmente na Revista Brasileira, entre março e dezembro de 1880, e lançado em livro no ano seguinte, Memórias Póstumas de Brás Cubas marcou uma virada decisiva na literatura brasileira.

O narrador é um morto.

Brás Cubas, depois de morrer, decide contar a própria história. E, livre do julgamento dos vivos, sente-se autorizado a falar sem grandes pudores sobre seus amores, fracassos, ambições e vaidades.

Não espere, porém, encontrar um herói. Brás Cubas é rico, mimado, egoísta e bastante convencido de sua própria importância. Entre seus projetos está o delirante Emplasto Brás Cubas, invenção que deveria lhe garantir fama e reconhecimento.

É justamente aí que Machado começa a brincar com o leitor: um homem que pretende contar sua grandeza acaba revelando, página após página, sua própria mediocridade.

E, ao dissecar Brás Cubas, Machado disseca também a sociedade à sua volta.

O choque de 1881

Hoje, a estrutura fragmentada do livro pode parecer familiar. Na época, era outra história.

Capítulos curtíssimos, digressões, interrupções, conversa direta com o leitor e um narrador que pouco se preocupa em conquistar nossa simpatia. O livro não se encaixava facilmente nos modelos de romance conhecidos até então.

A reação foi de surpresa. A crítica recebeu a obra com interesse, mas parte dos leitores resistiu justamente por não saber muito bem como classificá-la. Em carta a Machado, Capistrano de Abreu chegou a perguntar: “As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance?”

Talvez essa seja uma das melhores pistas para entender sua importância. Machado não estava apenas contando uma história diferente. Estava experimentando outra maneira de contar histórias.

⏳ Por que Brás Cubas continua tão atual?

Porque por trás do humor existe uma crítica bastante séria. Brás Cubas pertence à elite brasileira do século XIX, uma sociedade profundamente desigual e sustentada pela escravidão. Seus privilégios, suas relações de interesse e sua preocupação com as aparências aparecem no romance sem precisar de grandes discursos.

Machado deixa que os próprios personagens se revelem. E talvez seja isso que torna o livro tão atual: Brás Cubas é um homem do século XIX, mas suas vaidades são muito nossas.

Não por acaso, mais de 140 anos depois, a obra voltou a chamar atenção até fora do Brasil. Em 2024, uma leitora americana viralizou no TikTok ao declarar seu entusiasmo pelo livro, provocando uma nova onda de interesse por Machado entre leitores estrangeiros.

Parece que o velho Brás Cubas ainda tem algumas coisas a dizer…

📽 Do livro às telas

Em 2001, o diretor André Klotzel levou Memórias Póstumas ao cinema, com Reginaldo Faria no papel de Brás Cubas.

Adaptar Machado é um desafio e tanto. Afinal, boa parte da graça do romance está justamente na voz do narrador, em suas interrupções, ironias e provocações ao leitor.

O filme procura preservar esse espírito e oferece uma nova maneira de entrar no universo de Brás Cubas.

Sendo assim, para quem quiser conhecer melhor a obra, seguem abaixo os links para o livro e para o filme:

📖 Livro

Para fazer o download do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”CLIQUE AQUI!

🎬 Filme

Direção: André Klotzel | Ano: 2001| Duração: 80 minutos

⚰️ E depois da morte?

Ao final de sua autobiografia, Brás Cubas faz um balanço bastante peculiar da própria existência. Entre aquilo que não realizou e aquilo que deixou de transmitir, chega a uma conclusão que talvez seja a mais amarga de todo o livro:

Não é exatamente uma história de sucesso. Mas talvez seja justamente esse o ponto. Machado colocou um morto para contar sua vida e, ao fazer isso, nos obrigou a pensar na nossa.

Porque, no fim, a pergunta de Brás Cubas talvez não seja o que deixamos depois de morrer, mas o que estamos fazendo com a vida enquanto ainda estamos aqui...


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